COEs: complexidade, ilusão de Proteção e retornos abaixo do risco zero
O texto abaixo refere-se ao artigo “O retorno esperado dos COEs”, publicado em 2020 por 4 pesquisadores da FGV.
Os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) têm ganhado espaço como alternativa de investimento para o público de varejo. Sua promessa de “participar da alta” de ativos de risco com “proteção de capital” atraiu centenas de milhares de investidores no Brasil nos últimos anos.
Contudo, um estudo técnico rigoroso revela um cenário preocupante: a grande maioria dos COEs analisados apresentou retorno esperado inferior ao da taxa livre de risco, mesmo assumindo risco superior e liquidez reduzida.
O que os dados mostram
O estudo avaliou 284 COEs amplamente distribuídos no Brasil entre 2016 e 2020. Destacam-se dois grupos:
- 50 COEs mais vendidos para mais de 100 investidores cada.
- 234 COEs distribuídos por uma grande corretora entre 2019 e 2020.
A metodologia baseou-se em simulações de Monte Carlo para estimar o retorno esperado ponderando todos os cenários descritos nas lâminas dos produtos.
Principais achados:
- 252 dos 284 COEs analisados apresentavam retorno esperado abaixo da taxa dos títulos públicos (Tesouro Prefixado ou IPCA+).
- O retorno em excesso médio foi de -3,36% a.a. no grupo dos 50 principais COEs.
- Dos 234 COEs recentes, apenas 29 ofereciam retorno esperado acima da taxa livre de risco, e ainda assim com volatilidade elevada e Sharpe marginal ou nulo.
- A liquidez dos COEs é limitada e eles não contam com proteção do FGC.
Mas por que continuam sendo distribuídos?
O estudo faz referência a pesquisas internacionais (Célérier & Vallée, 2017; Egan, 2019) que apontam que produtos mais complexos tendem a entregar piores retornos aos investidores finais, mas melhores margens aos emissores e distribuidores.
No Brasil, muitos COEs são estruturados de modo a maximizar o apelo comercial (ex: nomes de fundos globais, ações de grandes marcas, “capital protegido”), mas sem entregar uma relação risco-retorno razoável.
Relevância para investidores com patrimônio consolidado
Se você possui mais de R$ 3 milhões investidos, seu foco deve estar em preservar capital, gerar renda real e manter liquidez estratégica.
Nesse contexto, COEs, ao menos na forma como têm sido ofertados, dificilmente são a melhor escolha.
A ausência de transparência quanto ao retorno esperado, associada à baixa liquidez e rendimento inferior ao risco zero, coloca os COEs na categoria de produtos a serem avaliados com extrema cautela.
Conclusão
COEs não são, por definição, instrumentos ruins. Mas a forma como vêm sendo estruturados e comercializados no Brasil levanta alertas legítimos.
Defendemos uma abordagem baseada em modelagem de cenário, retorno ajustado ao risco (Sharpe), transparência e alinhamento de interesses.
Antes de aceitar produtos estruturados, exija simulações robustas, análise probabilística e, principalmente, clareza sobre o que você está abrindo mão em troca da tal “proteção”.




